LXX – D. Plácida

Voltemos à casinha. Não serias capaz de lá entrar hoje, curioso leitor; envelheceu, enegreceu, apodreceu, e o proprietário deitou-a abaixo para substituí-la por outra, três vezes maior, mas juro-te que muito menor que a primeira. O mundo era estreito para Alexandre; um desvão de telhado é o infinito para as andorinhas.

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Machado de Assis, Memórias Póstumas.

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LXIII – Fujamos!

Uma janela aberta deixava entrar o vento, que sacudia frouxamente as cortinas, e eu fiquei a olhar para as cortinas, sem as ver. Empunhara o binóculo da imaginação; lobrigava, ao longe, uma casa nossa, uma vida nossa, um mundo nosso […]. Esta ideia embriagou-me […].

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Machado de Assis, Memórias Póstumas.

LVIII – Confidência

[…]

Calou-se, profundamente abatido,com os olhos no ar, parecendo não ouvir coisa nenhuma, a não ser o eco dos seus próprios pensamentos. Após alguns minutos, ergueu-se e estendeu-me a mão:

– O senhor há de rir-se de mim – disse ele-; mas desculpe aquele desabafo; tinha um negócio que me mordia o espírito.

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Machado de Assis, Memórias Póstumas.

O emplasto de Brás Cubas e o enigma de Édipo Rei: decifra-me ou devoro-te!

“Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer a mais arrojadas cabriolas de volatim que é possível crer. Eu deixei-me estar e contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu o braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te.”

ASSIS, Machado de. 1839-1908. Memórias póstumas de Brás Cubas/ Machado de Assis. – São Paulo: Escala Educacional, 2008.


Depois do capítulo XIX, o capítulo II é o meu favorito na obra de Machado de Assis. Penso ser impossível alguém nunca ter tido essa sensação de algo que inquieta a mente e o coração. Muitas coisas que nós criamos são frutos de uma ideia persistente que se pendura no trapézio do cérebro e quando adquire a forma de um X já era: chegou, enfim, a hora de concretizar. Não sei se ao escrever decifra-me ou devoro-te, Machado de Assis parafraseia A Saga de Édipo, pois a versão do livro que tenho em mãos não acrescenta nenhuma nota sobre isso no rodapé, mas  a Esfinge de Tebas desafio Édipo lança o enigma:

Que criatura tem quatro pés de manhã, dois ao meio-dia e três à tarde?

Caso ele não soubesse a reposta, já sabia sua sentença:

Decifra-me ou devoro-te.

Você sabe a resposta? Sabendo ou não, nossas inquietações podem ser tão ameaçadoras quanto a Esfinge de Tebas. O que te motiva? O que te inquieta? O que te move?

Ah! Segue a resposta do enigma:

É o ser humano! Engatinha quando bebê, anda sobre dois pés quando adulto e recorre a uma bengala na velhice.

Legal, não é?

Clichê, mas verdadeiro: aprenda que viver é aprender.

Machado de Assis, numa de suas obras mais famosas, afirmou:

Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jucundo, supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o tempo subsiste. (Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, VII – O delírio)

Decerto, não é o meu objetivo escrever aqui um tratado sobre o tempo, pois eu não teria como fazê-lo; não está nas minhas competências. Quando muito, sob o julgo de algum questionamento, poderia citar Santo Agostinho de Hipona:

[…] Se alguém me pergunta, eu sei; porém, se quero explicá-lo a quem me pergunta, então não sei. (Santo Agostinho, Confissões, XI, 14, 17)

Por que eu começo falando sobre o tempo? A resposta é demasiada simples: o tempo, na minha tão humilde e limitada opinião, é um verdadeiro filtro. Através desse filtro nós somos capazes de perceber o que realmente importa, aprendemos a valorizar os detalhes e observamos quanto caminho existe, quanta coisa pode mudar, e quanto aprendizado nós podemos retirar de (todas) nossas experiências. Um dia nós percebemos que até mesmo as coisas ruins trazem algo bom. Creia-me, caro leitor.

 Voltando, pois, à primeira citação, devo admitir que há muita pertinência na esperança do minuto que vem; do futuro. Quando se faz alguma reflexão sobre a vida – tarefa não pouco complexa – começamos a pensar em sua grandeza e mistérios, e ao aprofundar-se nessa reflexão, podemos concluir algumas coisas, a saber:

“O bem feito é melhor que o bem falado.”

Esta frase eu li num livro de James Hunter e eu compartilho, pois o termômetro que verifica a “temperatura do amor” não está nas coisas lindas e belas que alguém pode dizer; mas, sem dúvidas, nos bons atos que alguém pode fazer.

A vida é um constante movimento, e movimento pode pressupor queda.

E diante de tal desventura há duas possibilidades: permanecer no chão ou tomar uma boa atitude: levantar e continuar a caminhar. Quem foi que falou que seria fácil?

Levantar é difícil, exige esforço.

Mas a recompensa surge no “minuto que vem, não no minuto que passa”. Se todos quantos caíram tivessem no chão permanecido, não teríamos hoje histórias motivadoras de (auto)conhecimento, aceitação e superação.³ Caíste? Aquele que tudo conhece e perscruta os corações conceder-te-á forças para levantar e recomeçar, se tu nele acreditas. Caso não creias nele, hás de encontrar forças: a vida é um mistério inimaginável.

Dependendo do caso, essa é difícil de falar, mas nem por isso deve ser omitida:

Tudo acontece por algum motivo.

É parecido com o ponto número dois; apenas lamentar-se e chorar é o mesmo que no chão permanecer. Há quem diga que chorar faz bem, alivia. Mas tirar um aprendizado de algo ruim – por mais difícil que seja – é levantar-se e continuar a caminhar. O porquê há de ser esclarecido no futuro e o que outrora doía, pode hoje não doer tanto assim.

A história do teu próximo é a história do teu próximo.

Se ele compartilha algo contigo, é por que tem confiança e encontrou em ti segurança para compartir algo pessoal, isso é sagrado. A história de cada um é preciosa e merece respeito. De fato, demora-se muito tempo para construir uma confiança sólida e não muito tempo assim para destruí-la. Pense!

Respeite a história do teu próximo e respeite a sua história também.

E por falar em compartilhar, por que não advertir sobre o uso das redes sociais? Os teus milhares de amigos no Facebook ou seguidores do Twitter não são teus amigos deveras. Em verdade, a grande maioria nem te conhece pessoalmente. Amigos sinceros e autênticos são poucos, são menos que os dedos de tua mão. Chame esses para falar o que necessitas; não queira expor toda tua vida na internet, preserve sua dignidade. Lembra-te que tua história de vida é preciosa, não jogue  (seja-me perdoada a analogia) pérolas aos porcos.

Na essência do amor está o perdão. 

Já que falamos sobre nossas amizades, lembra-te que teus amigos que certamente são muito queridos e estimados por você são humanos e podem (e certamente vão) errar; prepara-te para isso. Amizade autêntica é amor puro, verdadeiro, desinteressado, que muitas vezes dói e exige sacrifício. Estás decidido a amar alguém, a ser amigo? Saiba que terás que perdoar e o perdão é algo genuíno.

E por falar em amor… 

Ama aqueles que te são caros, queridos, estimados. Mas ama principalmente aqueles que te odeiam; os teus amigos merecem teu amor, os teus inimigos necessitam dele.

Certamente, o amor não é fácil. E durante um certo tempo até pensamos poder viver razoavelmente sem ele. Percebemos porém que ao cortar a árvore para evitar o incômodo das folhas que caem, perdemos a sombra e os frutos, perdemos o doce farfalhar. E então estamos recomeçando a plantar. (Marina Colasanti, E Por Falar em amor)

Por último e não menos importante: EXPIRA, INSPIRA e NÃO PIRA. Muitas vezes costumamos dar demasiada atenção ao que nos oprime, e isso nos impede de refletir e tomar uma atitude correta, prudente e necessária. Não adianta desesperar, isso não vai ajudar! Lembra das aulas de biologia, quando o(a) professor(a) explicava a troca gasosa? Pois é, nosso corpo precisa de oxigênio para continuar tendo vida, nossas células absorvem o oxigênio e, a partir daí, prosseguem na realização de suas funções. Depois de vinte e três anos eu descobri que estava respirando errado e percebi também que respirar corretamente faz toda diferença: além de poder eliminar 80% das toxinas do corpo, auxilia também na saúde mental, reduzindo os níveis de ansiedade e estresse.

Obviamente cada um dos nove pontos elencados acima mereceriam uma explanação mais adequada e detalhada, mas o nosso objetivo era explicá-los com brevidade (talvez o objetivo não tenha sido atingido com sucesso, porém certas coisas não podem ser tão bem resumidas em duas, três linhas) e indicar um caminho de reflexão, de auto inquirição.

Aprenda como se você fosse viver para sempre. Viva como se você fosse morrer amanhã. (Santo Isidoro de Sevilha)