“O que é o amor?”, por Fernando Mauri.

O amor é o começo
De uma história sem fim
Pois antes mesmo de existir
Já era o que é para mim

O amor está na história
O amor está na realidade
O amor está lá fora
E também na intimidade

Para o amor não há fronteira
Para o amor não há distância
Para o amor não há cadeias
Muito menos arrogância

O que eu digo sobre o amor
Outros dizem de outra forma
Se digo que é serviço
Outros dizem que é parola

Para o amor não há rancor
Para o amor não chacota
Para o amor
Só o amor importa.

Fernando Mauri.

Anúncios

Uma bela tentativa de definir o amor por Luís Vaz de Camões:

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

 

Luís Vaz de Camões.

Soneto do amor total.

Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

 

MORAES, Vinícius de. Soneto do amor total. In: Antologia poética. 4. ed. Rio de Janeiro, Ed. do autor, 1963. p. 238.

Amor contemporâneo?

Quem não gosta de bater um papo com os amigos? Eu gosto! Sobretudo quando essas conversas produzem reflexões. Numa roda de amigos, certamente você já perguntou ou foi questionado sobre o amor. Posso estar enganado, mas sempre que surge essa pergunta a resposta vem recheada de bons sentimentos, não é?

Depois de um longo suspiro apaixonado as respostas podem ser alusivas ao gostar, querer bem, estar apaixonado e semelhantes. Contudo, tendo em vista as definições do dicionário e a sua associação com a obra platônica, a reflexão se norteia na seguinte afirmação, que é consequente da apreensão dos termos semânticos: não se trata apenas de um sentimento, mas também de um comportamento.

Está, portanto,  intimamente ligado à gratuidade. Penso que o costume de  apresentar uma definição do amor baseada em sentimentos não está errado, está incompleto. Até porque a maioria das proposições expostas pelo dicionário são apresentadas pela afetividade e emoção (eros, storgué e philia).

Agora, no entanto, é nosso objetivo completar a definição. Além de sentimentos, são também comportamentos e atitudes (agapaó). Onde entra a gratuidade, então? Além de ser algo que encontra sua melhor significação na prática, deve acontecer sem o interesse de obter algo em troca. Não se trata de puro sentimentalismo vazio, onde a intensidade varia tão somente pelo estado emocional de quem sente.

– É claro […] que há componentes emocionais no amor, como afeto, romance e paixão. Passei a entendê-los como a linguagem do amor, os sentimentos do amor, a expressão do amor, até o fruto do amor. Mas esses sentimentos não são a essência do ato de amar. Em termos simples, eu diria que amar é o que se faz, e não que se sente ou diz. (HUNTER, 2014, p.73)

Gratuitamente, decide-se amar alguém. Amar não por receber algo em troca, mas amar incondicionalmente, como alude o termo grego ágape. Não se tratando de algo que simplesmente floresce do interior, faz-se necessário salientar outro termo: decisão. Ama quem se decide a fazê-lo, pois só uma resolução firme em executar algo pressupõe a disposição em aceitar as consequências.

“O amor naturalmente faz sofrer pela óbvia razão de que faz você se abrir, expor a sua parte mais terna e vulnerável – a carne viva do seu coração – à mercê do amado e do tempo e do destino”. (KREEFT, 2016, p.150)

Decisão, pois o amor exige sacrifícios e renúncias, tendo em vista o bem-estar e o crescimento de outrem. Auxiliar nesse crescimento exige também firmeza, dado que consiste também em reconhecer e satisfazer as reais necessidades, bem como corrigir quando necessário. Se os sentimentos podem mudar de uma hora pra outra, o amor compromisso e escolha, não. Ama verdadeiramente quem deixa o amado afundar-se? Obviamente, não. Caso o amor não produza furtos de cuidado, proteção e decisão firme, não é amor deveras.

Pode parecer paradoxal, mas seguindo essa linha de raciocínio, pode-se amar uma pessoa sem gostar dela e gostar de alguém sem amar. Assim:

Não tenho necessariamente que gostar de meus jogadores e sócios, mas como líder devo amá-los. O amor é lealdade, o amor é trabalho de equipe, o amor respeita a dignidade e a individualidade. Esta é a força de qualquer organização. (Vince Lombardi)

A diferença está no proceder. Decidir-se a fazer algo, no entanto, implica uma doação plena. A conjugação perfeita entre amar e sentir o amor se dá na prática de bondade, humildade, respeito, abnegação, clemência, sinceridade, compromisso e empatia. A partir disso, portanto, é mais fácil compreender a ênfase na mensagem cristã de amor ao próximo. De fato, se levarmos em conta somente a parte afetiva e emocional do amor, seria impossível amar a todas as pessoas, inclusive os inimigos.

– Falando nisso – observei –, eu percebo claramente que há ocasiões em que minha mulher não gosta muito de mim. Mas ela permanece ao meu lado, de qualquer modo. Ela pode não gostar de mim, mas continua a me amar e manifesta isso por suas ações de envolvimento. (HUNTER, 2004, p. 79)

Com muita razão, o amor tem sido e continuará a ser a inspiração de muitos artistas, pensadores e líderes. Basta observar a existência de inúmeros e incontáveis poemas e poesias, modas e músicas, pinturas e fotografias que retratam essa realidade. Como não citar os tratados feitos sobre o tema ou a maneira como muitos viviam em nome do amor, com amor e por amor?

A reflexão iniciada há bastante tempo extraiu muitos e variados modos de pensar e agir. Uma pequena poesia de Homero, uma história de Platão com os sete grandes elogios ao amor e o modo de praticá-lo e vivê-lo inaugurado por Jesus Cristo e ensinado aos seus pósteros. Em todos os casos, portanto, notamos que as muitas definições e qualidades do amor, concordâncias e divergências entre os mais variados períodos e grupos contribuíram não pouco para o processo de criação e manutenção da sociedade, assim como na difusão de cultura e ideais de vida nela contidas.

Como se pode notar, o amor é capaz de tudo. Pode preencher o vazio da alma angustiada e ao mesmo tempo deixa-la inquieta, na busca de seu eterno amante. Tendo-o encontrado, tem o poder de garantir a plena satisfação e é capaz de mover até mesmo o sol, como disse Dante Alighieri, na conclusão de seu poema épico, A Divina Comédia:

“Foi a alta fantasia aqui tolhida; mas ânsias e vontade era a movê-las, já como roda por igual movida, o amor que move o sol e as mais estrelas.” (ALIGHIERI, 2011, p. 887)

 

ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia. São Paulo; Editora Landmark, 2005.

HUNTER, James. De volta ao mosteiro: o monge e o executivo falam de liderança e trabalho em equipe. Rio de Janeiro; Editora Sextante, 2014.

______________. O Monge e o Executivo: uma história sobre a essência da liderança. Rio de Janeiro; Editora Sextante, 2004.

KREEFT, Peter. Três filosofias de vida.  2ª edição. São Paulo; Editora Quadrante, 2016.

O Mito do Andrógino.

O quarto discurso que é apresentado na obra platônica “O Banquete”, produzido por Aristófanes, é o mito do Andrógino, também chamado por alguns de mito das almas gêmeas. Ei-lo:

“Na verdade, Erixímaco, disse Aristófanes, é de outro modo que tenho a intenção de falar, diferente do teu e do de Pausânias. Com efeito, parece-me os homens absolutamente não terem percebido o poder do amor, que se o percebessem, os maiores templos e altares lhe preparariam, e os maiores sacrifícios lhe fariam, não como agora que nada disso há em sua honra, quando mais que tudo deve haver. É ele com efeito o deus mais amigo do homem, protetor e médico desses males, de cuja cura dependeria sem dúvida a maior felicidade para o gênero humano. Tentarei eu portanto iniciar-vos em seu poder, e vós o ensinareis aos outros. Mas é preciso primeiro aprenderdes a natureza humana e as suas vicissitudes.

Com efeito, nossa natureza outrora não era a mesma que a de agora, mas diferente. Em primeiro lugar, três eram os gêneros da humanidade, não dois como agora, o masculino e o feminino, mas também havia a mais um terceiro, comum a estes dois, do qual resta agora um nome, desaparecida a coisa; andrógino era então um gênero distinto, tanto na forma como no nome comum aos dois, ao masculino e ao feminino, enquanto agora nada mais é que um nome posto em desonra. Depois, inteiriça era a forma de cada homem, com o dorso redondo, os flancos em círculo; quatro mãos ele tinha, e as pernas o mesmo tanto das mãos, dois rostos sobre um pescoço torneado, semelhantes em tudo; mas a cabeça sobre os dois rostos opostos um ao outro era uma só, e quatro orelhas, dois sexos, e tudo o mais como desses exemplos se poderia supor. E quanto ao seu andar, era também ereto como agora, em qualquer das duas direções que quisesse; mas quando se lançavam a uma rápida corrida, como os que cambalhotando e virando as pernas para cima fazem uma roda, do mesmo modo, apoiando-se nos seus oito membros de então, rapidamente eles se locomoviam em círculo. Eis por que eram três os gêneros, e tal a sua constituição, porque o masculino de início era descendente do sol, o feminino da terra, e o que tinha de ambos era da lua, pois também a lua tem de ambos; e eram assim circulares, tanto eles próprios como a sua locomoção, por terem semelhantes genitores. Eram por conseguinte de uma força e de um vigor terríveis, e uma grande presunção eles tinham; mas voltaram-se contra os deuses, e o que diz Homero de Efialtes e de Otes é a eles que se refere, a tentativa de fazer uma escalada ao céu, para investir contra os deuses. Zeus então e os demais deuses puseram-se a deliberar sobre o que se devia fazer com eles, e embaraçavam-se; não podiam nem matá-los e, após fulminá-los como aos gigantes, fazer desaparecer-lhes a raça – pois as honras e os templos que lhes vinham dos homens desapareceriam nem permitir-lhes que continuassem na impiedade. Depois de laboriosa reflexão, diz Zeus: “Acho que tenho um meio de fazer com que os homens possam existir, mas parem com a intemperança, tornados mais fracos. Agora com efeito, continuou, eu os cortarei a cada um em dois, e ao mesmo tempo eles serão mais fracos e também mais úteis para nós, pelo fato de se terem tomado mais numerosos; e andarão eretos, sobre duas pernas. Se ainda pensarem em arrogância e não quiserem acomodar-se, de novo, disse ele, eu os cortarei em dois, e assim sobre uma só perna eles andarão, saltitando.” Logo que o disse pôs-se a contar os homens em dois, como os que cortam as sorvas para a conserva, ou como os que cortam ovos com cabelo; a cada um que cortava mandava Apolo voltar-lhe o rosto e a banda do pescoço para o lado do corte, a fim de que, contemplando a própria mutilação, fosse mais moderado o homem, e quanto ao mais ele também mandava curar. Apolo torcia-lhes o rosto, e repuxando a pele de todos os lados para o que agora se chama o ventre, como as bolsas que se entrouxam, ele fazia uma só abertura e ligava-a firme-mente no meio do ventre, que é o que chamam umbigo. As outras pregas, numerosas, ele se pôs a polir, e a articular os peitos, com um instrumento semelhante ao dos sapateiros quando estão polindo na forma as pregas dos sapatos; umas poucas ele deixou, as que estão à volta do próprio ventre e do umbigo, para lembrança da antiga condição. Por conseguinte, desde que a nossa natureza se mutilou em duas, ansiava cada um por sua própria meta de e a ela se unia, e envolvendo-se com as mãos e enlaçando-se um ao outro, no ardor de se confundirem, morriam de fome e de inércia em geral, por nada quererem fazer longe um do outro. E sempre que morria uma das metades e a outra ficava, a que ficava procurava outra e com ela se enlaçava, quer se encontrasse com a metade do todo que era mulher – o que agora chamamos mulher quer com a de um homem; e assim iam-se destruindo. Tomado de compaixão, Zeus consegue outro expediente, e lhes muda o sexo para a frente – pois até então eles o tinham para fora, e geravam e reproduziam não um no outro, mas na terra, como as
cigarras; pondo assim o sexo na frente deles fez com que através dele se processasse a geração um no outro, o macho na fêmea, pelo seguinte, para que no enlace, se fosse um homem a encontrar uma mulher, que ao mesmo tempo gerassem e se fosse constituindo a raça, mas se fosse um homem com um homem, que pelo menos houvesse saciedade em seu convívio e pudessem repousar, voltar ao trabalho e ocupar–se do resto da vida. E então de há tanto tempo que o amor de um pelo outro está implantado nos homens, restaurador da nossa antiga natureza, em sua tentativa de fazer um só de dois e de curar a natureza humana. Cada um de nós portanto é uma téssera complementar de um homem, porque cortado como os linguados, de um só em dois; e procura então cada um o seu próprio complemento. Por conseguinte, todos os homens que são um corte do tipo comum, o que então se chamava andrógino, gostam de mulheres, e a maioria dos adultérios provém deste tipo, assim como também todas as mulheres que gostam de homens e são adúlteras, é deste tipo que provêm. Todas as mulheres que são o corte de uma mulher não dirige muito sua atenção aos homens, mas antes estão voltadas para as mulheres e as amiguinhas provêm deste tipo. E todos os que são corte de um macho perseguem o macho, e enquanto são crianças, como cortículos do macho, gostam dos homens e se comprazem em deitar-se com os homens e a eles se enlaçar, e são estes os melhores meninos e adolescentes, os de natural mais corajoso. Dizem alguns, é verdade, que eles são despudorados, mas estão mentindo; pois não é por despudor que fazem isso, mas por audácia, coragem e masculinidade, porque acolhem o que lhes é semelhante. Uma prova disso é que, uma vez amadurecidos, são os únicos que chegam a ser homens para a política, os que são desse tipo. E quando se tornam homens, são os jovens que eles amam, e a casamentos e procriação naturalmente eles não lhes dão atenção, embora por lei a isso sejam forçados, mas se contentam em passar a vida um com o outro, solteiros. Assim é que, em geral, tal tipo torna-se amante e amigo do amante, por-que está sempre acolhendo o que lhe é aparentado. Quando então se encontra com aquele mesmo que é a sua própria metade, tanto o amante do jovem como qualquer outro, então extraordinárias são as emoções que sentem, de amizade, intimidade e amor, a ponto de não quererem por assim dizer separar-se um do outro nem por um peque-no momento. E os que continuam um com o outro pela vida afora são estes, os quais nem saberiam dizer o que querem que lhes venha da parte de um ao outro. A ninguém com efeito pareceria que se trata de união sexual, e que é porventura em vista disso que um gosta da companhia do outro assim com tanto interesse; ao contrário, que uma coisa quer a alma de cada um, é evidente, a qual coisa ela não pode dizer, mas adivinha o que quer e o indica por enigmas. Se diante deles, deitados no mesmo leito, surgisse Hefesto e com seus instrumentos lhes perguntasse: Que é que quereis, ó homens, ter um do outro?, e se, diante do seu embaraço, de novo lhes perguntasse: Porventura é isso que desejais, ficardes no mesmo lugar o mais possível um para o outro, de modo que nem de noite nem de dia vos separeis um do outro? Pois se é isso que desejais, quero fundir-vos e forjar-vos numa mesma pessoa, de modo que de dois vos tomeis um só e, enquanto viverdes, como uma só pessoa, possais viver ambos em comum, e depois que morrerdes, lá no Hades, em vez de dois ser um só, mortos os dois numa morte comum; mas vede se é isso o vosso amor, e se vos contentais se conseguirdes isso. Depois de ouvir essas palavras, sabemos que nem um só diria que não, ou demonstraria querer outra coisa, mas simplesmente pensaria ter ouvido o que há muito estava desejando, sim, unir-se e confundir-se com o amado e de dois ficarem um só. 0 motivo disso é que nossa antiga natureza era assim e nós éramos um todo; é portanto ao desejo e procura do todo que se dá o nome de amor. Anteriormente, como estou dizendo, nós éramos um só, e agora é que, por causa da nossa injustiça, fomos separados pelo deus, e como o foram os árcades pelos lacedemônios; é de temer então, se não formos moderados para com os deuses, que de novo sejamos fendidos em dois, e perambulemos tais quais os que nas estelas estão talhados de perfil, serra-dos na linha do nariz, como os ossos que se fendem. Pois bem, em vista dessas eventualidades todo homem deve a todos exortar à piedade para com os deuses, a fim de que evitemos uma e alcancemos a outra, na medida em que o Amor nos dirige e comanda. Que ninguém em sua ação se lhe oponha – e se opõe todo aquele que aos deuses se torna odioso-pois amigos do deus e com ele reconciliados descobriremos e conseguiremos o nosso próprio amado, o que agora poucos fazem. E que não me suspeite Erixímaco, fazendo comédia de meu discurso, que é a Pausânias e Agatão que me estou referindo talvez também estes se encontrem no número desses e são ambos de natureza máscula mas eu no entanto estou dizendo a
respeito de todos, homens e mulheres, que é assim que nossa raça se tornaria feliz, se plenamente realizássemos o amor, e o seu próprio amado cada um encontrasse, tornado à sua primitiva natureza. E se isso é o melhor, é forçoso que dos casos atuais o que mais se lhe avizinha é o melhor, e é este o conseguir um bem amado de natureza conforme ao seu gosto; e se disso fôssemos glorificar o deus responsável, merecidamente glorificaríamos o Amor, que agora nos é de máxima utilidade, levando-nos ao que nos é familiar, e que para o futuro nos dá as maiores esperanças, se formos piedosos para com os deuses, de restabelecer- nos em nossa primitiva natureza e, depois de nos curar, fazer-nos bem aventurados e felizes.

Eis, Erixímaco, disse ele, o meu discurso sobre o Amor, diferente do teu. Conforme eu te pedi, não faças comédia dele, a fim de que possamos ouvir também os restantes, que dirá cada um deles, ou antes cada um dos dois; pois restam Agatão e Sócrates.” (Texto retirado do Livro de domínio público.)

 

Há, na internet, um vídeo chamado The Origin Of Love by Hedwig And The Angry Inch. Confira: https://www.youtube.com/watch?v=YRMZ7MU4ERs&t=66s

 

 

Amor na antiguidade e sua associação com a terminologia atual.

É unânime: todas as vezes que se comenta sobre o amor na antiguidade as pessoas recorrem a Platão. Por mais que alguns filósofos pré-socráticos citem o amor em suas cosmologias ou Homero tenha feito suas referências e alusões, ou ainda Safo de Lesbos tenha escrito seus poemas de amor, Platão foi o primeiro a escrever uma obra totalmente dedicada ao tema e com grande riqueza de pensamentos. Tão logo, achei por bem iniciar esta reflexão utilizando de seus escritos. Importante salientar que isso não se trata de uma resenha da obra platônica; quando muito, uma ou outra reflexão que ela causou.

No que se refere à cultura antiga, é interessante enfatizar a sociedade e cultura grega. Na antiguidade nos são apresentados alguns períodos históricos: Micênio ou Homérico, Arcaico, Clássico e Helenístico. Direcionaremos mais atenção ao Clássico, que vai do século VI ao IV a.C., no qual a civilização grega atingiu sua maior fulgência, sobretudo em Atenas e Esparta, nos aspectos culturais e intelectuais.

Nos mais diversos setores do saber humano, os gregos deixaram uma valiosa herança de realizações culturais. Herança que representa uma das estruturas fundamentais sobre a qual se ergueu culturalmente a civilização ocidental. (COTRIM, 1993, p. 57)

Neste contexto de ereção da cultura ocidental vão emergindo as primeiras poesias. Homero é o primeiro a fazer suas alusões ao amor através de Afrodite; mas não é algo demasiado em extensão. Logo após vem Platão, cidadão ateniense, nascido em 428/427 a.C. e falecido em 347 a.C. que escrevera sobre o amor na obra Banquete ou Symposium.

Na casa de Agatão, conhecido poeta trágico, a festa é grande, longa e animada. Come-se bem e bebe-se ainda melhor. Muitos amigos e companheiros à volta da mesa do banquete. A noite anterior também foi de festa. Hoje, Pausâmias propõe que seja diferente, dia de reflexão e análise, com moderação na bebida, pois o vinho turva o espírito e embaça o raciocínio. À volta da mesa, a conversa é repleta de entusiasmo e o prato principal é uma novidade. Desta vez, a política, a justiça, o bem, a virtude ou a sabedoria ficaram de lado. Faz-se elogio do amor, exaltam-se os erros, cantam-se e louvam-se os dons de Afrodite. (HENRIQUES; BARROS, 2013, P. 349)

Começa, então, uma busca veemente que tem como objetivo descobrir o que é o amor. Fala-se do amor, do Eros, do indizível. Tem-se como luxúria a definição do amor carnal e se é revelado o mito do Andrógino, afirmando que o amor tem um caráter de insatisfação e incompletude, uma vez que quem ama vive na eterna procura de seu amante. O texto platônico é deveras pertinente pois em suas linhas busca responder  muitos questionamentos sobre o amor.  Os elogios ou discursos procuram saber qual a natureza do amor e o associam à beleza; pondera-se a quantidade de amores e se existe alguma harmonia.

Neste período será muito comum ouvir falar dos vários deuses, pois estamos a analisar uma cultura que teve seu berço na mitologia, onde havia um deus específico para cada coisa ou situação. Vejamos:

Não é estranho, ó Erixímaco, que para os outros deuses haja hinos e peãs, feitos pelos poetas, enquanto que ao Amor, todavia, um deus tão venerável e grande, jamais um só dos poetas que tanto se engradeceram fez sequer um encômio? […] Acho que cada um de nós deve fazer, da esquerda para a direita, um discurso de louvor ao Amor, o mais belo que puder, e que Fedro deve começar primeiro, já que está na ponta e é o pai da ideia. (PLATÃO, 1972, p.17,18)

No texto platônico, percebemos que existem várias definições de amor. Dos sete elogios e discursos percebe-se com clareza a peculiaridade nas delimitações que os convidados do grande banquete festivo ofereciam ao amor. Naquela noite celebrativa o entretenimento fora deixado de lado para que Fedro, Pausâmias, Erixímaco, Aristófanes, Agáton, Sócrates e Alcibíades expressassem suas sentenças. Importante salientar que essas definições não concordavam entre si totalmente, talvez seja essa uma explicação para as muitas formas de expressar um “deus tão venerável e grande”, que é o amor. Dessa forma:

“Os significados que este termo apresenta na linguagem comum são múltiplos, díspares e contrastantes; igualmente múltiplos, díspares e contrastantes são os que se apresentam na tradição filosófica.” (ABBAGNANO, 2014, p. 38)

TERMINOLOGIA DE AMOR

Para que possamos compreender melhor como se deu essa busca pelo amor e como o homem continua, na contemporaneidade essa reflexão, veremos sua definição semântica e, depois disso, analisaremos, mesmo que de maneira não muito profunda alguns termos primitivos e suas derivações para perceber como sua significação é ampla. No dicionário encontramos as seguintes definições:

[Lat. amore.] sm. 1. Sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem. 2. Sentimento de dedicação absoluta de um ser a outro, ou a uma causa. 3. Inclinação ditada por laços de família. 4. Inclinação sexual forte por outra pessoa. 5. Apego profundo a valor, coisa, ou animal. 6. Devoção extrema. 7. Objeto do amor (1 a 6). (AURÉLIO, 2010, p.42)

A partir destas definições, fica mais fácil compreender porque existiam “vários amores” para os gregos. Estes muitos amores de que falavam os gregos antigos são termos análogos ao que hoje temos por definições de amor. As delimitações acima mencionadas são dadas pela regra formal e tem pontos comuns com a terminologia grega.

Se hoje existem muitas definições sobre o amor, naquele tempo havia várias palavras que o definiam, ainda vigentes, é válido ressaltar. Alguns exemplos: eros, do qual deriva o termo erótico, amor erótico, que expressa os sentimentos de atração sexual e forte desejo (quarta definição do dicionário).  Storgué, o amor de afeição. Sentimentos bons para com a família e seus membros (definição número três). Philos ou philia, que expressa fraternidade, amor recíproco e condicional (segunda definição). Há também o amor ágape, correspondente ao verbo agapaó: o amor incondicional, baseado na prática comportamental e escolha, não num sentimento, diferentemente dos outros termos antecedentes.

Fontes:

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo; Editora WFM Martins Fontes, 2014.

COTRIM, Gilberto. História Geral para uma geração consciente. Da antiguidade aos tempos atuais. 9º edição. São Paulo; Editora Saraiva, 1993;

HENRIQUES, Mendo; BARROS, Nazaré. Olá consciência: uma viagem pela filosofia! São Paulo. É Realizações, 2013;

PLATÃO. Apologia de Sócrates. Banquete; [tradução Jean Melville]. São Paulo; Editora Martin Claret, 2001;

Breve parêntesis: a importância do fato no contexto.

Ter uma visão geral e ampla de determinado momento histórico pode não ser uma tarefa muito simples, tendo em vista o caráter poliforme e em demasia variado da civilização humana. Há que se notar, por isso, a estabilidade que pode acompanhar um fato que há muito aconteceu, ou que é corrente, pois ao falar, por exemplo, de alguns fatores como desenvolvimento social, intelectual, cultural e geográfico, podemos perceber claramente tal estabilidade, pois todo processo histórico é longo e acontece a partir do desenvolvimento proveniente da característica de manutenção e equilíbrio que essa civilizações adquirem. Tão somente por isso afirmamos que mudanças acontecem e sempre acontecerão, mas elas necessitam de um tempo para tal. Logo, algumas se dão paulatinamente.

Antes de analisarmos o tema em si, em sua primeira perspectiva, cronologicamente falando, convém observar o despontamento das primeiras civilizações, uma vez que cada qual tem uma maneira típica de agir e se posicionar mediante suas realidades e condições. Isso se encaixa em todos os âmbitos, pois além do método de agir, o modo de pensar também é moldado pelo período no qual se vive e vice-versa. Dos aspectos mais triviais aos mais complexos, todos nos são importantes.

Na prática, a troca de produtos e comércio, as novidades acrescentadas e limitações, adaptações e superações. Os conhecimentos aprendidos no corrente momento e transmitidos aos seus pósteros, os objetivos, assim como o processo de organização e constituição das civilizações: todos eles têm muito a dizer sobre a perspectiva da sociedade sob todo e qualquer tema a ser estudado e são de grande valor para compreensão geral. Uma vez que as maneiras de organização, constituição e mentalidade falam muito sobre como se delimita algo num dado momento. O parâmetro é geral e válido para todos os tempos. É como se a prática comum e todos os fatores citados anteriormente fossem um retrato da realidade de então. Obviamente, não convém e tampouco é nosso objetivo emitir uma generalização, pois em todos os tempos existiram pessoas que estiveram à frente de seu tempo.

Proposta foi essa reflexão para que percebamos, enfim, que ao fazer uma digressão histórica e analisar um fato pretérito é muito perigoso emitir juízos segundo a mentalidade atual.  Essa reflexão é válida para todo e qualquer tema, uma vez que a história é testemunha fiel dos inumeráveis acontecimentos que nos precederam e hoje podem causar certa repulsão. Daqui a alguns séculos, como nossos pósteros olharão para nossos atos?