À vida.

À vida, que é um espetáculo de reveses e superações, atribui-se o título de “caixinha de surpresas”. O que esse título tem de clichê ele tem de verdadeiro; isso tudo porque as certezas são poucas e os “e se” são infindáveis, infinitos – pelo menos enquanto houver vida – assim como são infinitas as possibilidades.

Depois de perceber o grito feroz da realidade e notar uma boca calada e um olhar atento ao teto, do grito feroz fez-se um sussurro impiedoso: “Por que tu vives?” Pois é, a contemplação de outrem gerou em mim questionamentos; afinal, como poderia eu saber o que pensava a dona do atento olhar?

A mim causa mais inquietação o sentido da caminhada e não a distância dela, à pessoa que admirava o teto, no entanto, não sei quais devaneios executava. Talvez aqueles que correm ou caminham ávidos concordem comigo. Talvez. Livre-me Deus e livre a ti, caro leitor, uma caminhada sem meta; uma meta sem sentido.

O filósofo antigo¹ afirmou que a virtude está no meio e se o finado Cubas² advertia sobre o perigo de uma ideia fixa eu, eu mesmo, sem o peso e a moral que ele dispõe – ou dispunha, não sei – digo: cuidado também com a volatilidade das coisas, das ideias e das paixões. Nem oito; nem oitenta. Pra quem está perdido qualquer lugar serve. E pra quem quer se encontrar?

¹ Aristóteles
² Brás Cubas, do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis.

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Noites a fio.

Eram noites a fio sem dormir
pois as preocupações não paravam de surgir,
entre uma e outra coisa, uma certeza:
tudo vai se resolver, isso eu vejo com clareza.

Na fria e silenciosa madrugada
todas as coisas possuem uma linguagem,
Ó céus! Falta muito para a alvorada?
refletir realmente traz vertiginosa aprendizagem.

Porém, que aprendizado custoso,
eu queria mesmo era ter um sono proveitoso.
O corpo repousa, mas a mente não,
cala-se a boca mas brada o coração.

O ansioso sofre quando não é para sofrer:
essa antecipação só faz perecer,
não vive o presente e só no futuro pensa;
é uma situação deveras tensa.

Ouvira falar de um tal exercício de respiração.
Tentar-se-á! porque não?
Inspira bem fundo puxando pelo nariz o ar.
Solta devagar pela boca, falta pouco, vai funcionar!

E de tanto pensar em respirar,
e só nisso e nada mais ponderar,
Morfeu* aparece com um convite:
vamos dormir? É para o seu deleite.

Apreciador das Letras.


* Morfeu é o deus do sono na mitologia grega.

Viver é isso: adaptação.

Aprender que viver é sonhar,
com muita confiança e fé caminhar.
Oxalá pudéssemos ver
que a alegria está no tentar, não somente no vencer.

Há quem diga que tudo que acontece
tem um motivo especial,
é verdade que nem tudo nos apetece,
mas a força de vontade é um diferencial.

Quem tem paciência é deveras feliz,
não porque tem tudo, porque tudo ter é ilusão.
Tem felicidade pois se reconhece um aprendiz
e sabe que nada nessa vida é em vão.

Foi então que de súbito observei:
viver é isso: adaptação.
pois é esta a grande lei:
um pouquinho, só um pouquinho mais de compreensão.

Apreciador das Letras.