Agiotagem

um
dois
três
o juro: o prazo
o pôr/ o cento/ o mês/ o ágio

porcentágio

dez
cem
mil
o lucro: o dízimo
o ágio/ a moral/ a monta em péssimo

empréstimo

muito
nada
tudo
a quebra: a sobra
a monta/ o pé/ o cento/ a quota

haja nota

agiota.

Mário Chamie

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O rio.

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era a imagem de um vidro mole que fazia
uma volta atrás da casa.
Passou o homem e disse Essa volta
que o rio faz por trás de sua casa se chama
enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia a volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.

Manuel de Barros, O livro das ignorãças. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1993. p. 27.

Amizade: liberdade da alma e alegria do espírito.

Em um de seus belíssimos escritos, São Gregório Nazianzeno, um dos padres da Igreja, escreveu sobre seu amigo São Basílio, e nos explicou um pouco como viviam profundamente a amizade:

“Encontramo-nos em Atenas. Como o curso de um rio, que partindo da única fonte se divide em muitos braços, Basílio e eu nos tínhamos separado para buscar a sabedoria em diferentes regiões. Mas voltamos a nos reunir como se nos tivéssemos posto de acordo, sem dúvida porque Deus assim quis.

Nesta ocasião, eu não apenas admirava meu grande amigo Basílio vendo-lhe a seriedade de costumes e a maturidade e prudência de suas palavras, mas ainda tratava de persuadir a outros que não o conheciam tão bem a fazerem o mesmo. Logo começou a ser considerado por muitos que já conheciam sua reputação.

Que aconteceu então? Ele foi quase o único entre todos os que iam estudar em Atenas a ser dispensado da lei comum; e parecia ter alcançado maior estima do que comportava sua condição de novato. Este foi o prelúdio de nossa amizade, a centelha que fez surgir nossa intimidade; assim fomos tocados pelo amor mútuo.

Com o passar do tempo, confessamos um ao outro nosso desejo: a filosofia era o que almejávamos. Desde então éramos tudo um para o outro; morávamos juntos, fazíamos as refeições à mesma mesa, estávamos sempre de acordo aspirando os mesmos ideais e cultivando cada dia mais estreita e firmemente nossa amizade.

Movia-nos igual desejo de obter o que há de mais invejável: a ciência; no entanto, não tínhamos inveja, mas valorizávamos a emulação. Ambos lutávamos, não para ver quem tirava o primeiro lugar, mas para cedê-lo ao outro. Cada um considerava como própria a glória do outro.

Parecia que tínhamos uma só alma em dois corpos. E embora não se deva dar crédito àqueles que dizem que tudo se encontra em todas as coisas, no nosso caso podia se afirmar que de fato cada um se encontrava no outro e com o outro.

A única tarefa e objetivo de ambos era alcançar a virtude e viver para as esperanças futuras, de tal forma que, mesmo antes de partirmos desta vida, tivéssemos emigrado dela. Nesta perspectiva, organizamos toda a nossa vida e maneira de agir. Deixamo-nos conduzir pelos mandamentos divinos estimulando-nos mutuamente à prática da virtude. E, se não parecer presunção minha dizê-lo, éramos um para o outro a regra e o modelo para discernir o certo e o errado.

Assim como cada pessoa tem um sobrenome recebido de seus pais ou adquirido de si próprio, isto é, por causa da atividade ou orientação de sua vida, para nós a maior atividade e o maior nome era sermos realmente cristãos e como tal reconhecidos”. 

Fonte: Aleteia.

LXX – D. Plácida

Voltemos à casinha. Não serias capaz de lá entrar hoje, curioso leitor; envelheceu, enegreceu, apodreceu, e o proprietário deitou-a abaixo para substituí-la por outra, três vezes maior, mas juro-te que muito menor que a primeira. O mundo era estreito para Alexandre; um desvão de telhado é o infinito para as andorinhas.

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Machado de Assis, Memórias Póstumas.

LXIII – Fujamos!

Uma janela aberta deixava entrar o vento, que sacudia frouxamente as cortinas, e eu fiquei a olhar para as cortinas, sem as ver. Empunhara o binóculo da imaginação; lobrigava, ao longe, uma casa nossa, uma vida nossa, um mundo nosso […]. Esta ideia embriagou-me […].

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Machado de Assis, Memórias Póstumas.

LVIII – Confidência

[…]

Calou-se, profundamente abatido,com os olhos no ar, parecendo não ouvir coisa nenhuma, a não ser o eco dos seus próprios pensamentos. Após alguns minutos, ergueu-se e estendeu-me a mão:

– O senhor há de rir-se de mim – disse ele-; mas desculpe aquele desabafo; tinha um negócio que me mordia o espírito.

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Machado de Assis, Memórias Póstumas.

Pensas que romances são mentiras?

– Pensas que romances são mentiras?
– Tenho certeza disso.
– Neste ponto estás muito atrasada, d. Celina; os romances têm sempre uma verdade por base; o maior trabalho dos romancistas consiste em desfigurar essa verdade de tal modo que os contemporâneos não cheguem a dar os verdadeiros nomes de batismo às personagens que aí figuram.

(Diálogo extraído de Dois amores, obra do romântico Joaquim Manuel de Macedo)